quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Nó atrioventricular

Nada melhor do que pensar no próximo
vacilo dos outros, deslize dos mesmos,
descuido convosco, tirar de sossego.

Na próxima, nada melhor do que pensar
no si, em se desmentir, sem se eximir,
se assumir, se ilidir, falar sem cuspir.

A culpa e o perdão lado-a-lado do sujeito
Dependendo do tanto, não se tira proveito
Só preconceito, nada de espanto
A opinião é mastigada e degustada no engano

Hora de bater no peito e brindar a glória:
Mais uma mente ferida, uma alma simplória
Um corpo vagante, vivendo apenas refrão
Viagem dos outros, e o seu(s)... sempre são(s).

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Se mestre

Já não se fazem nuncas como os de antigamente
Hodiernamente, poucos são os que restaram
Feitos meta, sucumbem um-a-um
Assim como os sempres que se passaram

A língua entre a pressão dos dentes
Remete à dor dos vocábulos proferidos
É sangue vertido pelos diálogos
Locupletando a taça dos monólogos

Faz-se brinde ao que fora ao vento
E ao que chegara superveniente

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Quedê?

A arte que parte
Na tarde que arde
Besteiras de alarde
Da parte que arde
Embora que tarde
Resulta de arte

quarta-feira, 16 de julho de 2014

0,42 segundos

Pior quando lhe travam por si
Sem saber a quem, sem saber a qui
Que pese todo o feito
Seja ele bom ou quase perfeito

O que a inconsequência perde
pra tudo o que não se tem razão
De ruim, quando descamba pra má ventura
De melhor quando se vive, se respira

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Tamisação

Como moeda que cai na areia da praia
Enfiada no mundarel de grãos
Esperando por um vento maral
Que lhe descobrisse até que a vejam
Até que deem seu valor

terça-feira, 25 de março de 2014

Tiração

Tirei minha primeira folga
E fui trabalhar
Tirei minha segunda
Indo estudar
Tirei a terceira folga
Pra tentar dormir

Daí fiquei exausto
Cheio de grana
E não quis mais tirá-las

Assim, tirei o trabalho
E não produzi
Tirei-me os estudos
E emburreci
Dos sonos tirados
Colori as olheiras

Daí fiquei com a liberdade
Cheio de pobreza
E resolvi não tirar mais nada

Agora acrescento medidas razoáveis
de 'cada coisa no seu lugar'
E corro da falta e do excesso
Sempre acompanhado de perto
pelo 'sem tirar, nem por'
Deixando estar errado ou certo

Sem início, nem fim
Apenas meio.

quarta-feira, 19 de março de 2014

CoLapso

O absurdo é possível
Condicionado ao vulnerável
Dispensando-se o crítico

Ah, não! Desse, não!
Do crítico não precisamos
Precisamos de uma mão
Bradavam, escondidos

Há cinquenta anos
Trocou-se a ameaça por ditadura
Numa desculpa importada

A cortina linha-dura
Fez do vermelho, sangue
Do branco, do negro
Dos corpos e das almas

Cruz e espada de um só lado
Ultrapassaram o passado
Vivas em desculpas esfarrapadas

E a rédia vai no povo
Dinheiro vai pro bolso
Na bolsa, o ópio
No fundo a vida do pobre

O absurdo é possível.